quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Nada mais brasileiro

Na Paraíba, não há verão completo sem festverão e BBB. Este último que completa os verões dos brasileiros, não só do perceptível estado que está sob as ordens do monarca Ricardo I. Junto com o BBB e dentro dele vem outro prodígio da nossa cultura: o poeta Pedro Bial. Chega a ser comovente e inspirador ouvir suas palavras entre as lágrimas dos emparedados e a amizade eterna dos outros participantes. Mas, nos concentremos no que vai além do apresentador, se existe algo que vá além do nada.

Estamos diante de um programa totalmente imprevisível, no qual os perfis dos participantes não se repetem a cada ano e suas ações são totalmente inéditas. Sempre há o galã, a gostosa, a amiga fiel, o parceiro bonzinho e o casal à moda crepúsculo. Sem falar, é claro, que todo ano há um homossexual. Este ano mais do que nunca.

Todos ficam amigos de início, pois é só após algumas semanas que os grupos formam-se e segregam-se, uns contra os outros e unidos em si. Um promete companheirismo inabalável ao outro, pois não está ali só para ganhar o prêmio e não irá fazer o possível para tal. Um exemplo de bondade e amizade para as crianças.

No programa ninguém gosta de barraco, só a Globo e os brasileiros. Todo mundo é da paz, mas a audiência atinge seus picos nos momentos de tensão. Todos os cristãos não julgam ninguém, só abrem exceção para os integrantes do BBB. Uma exceção temperada com adjetivos e dividida com a pessoa mais próxima.

Isso mostra o grau de cultura da sociedade brasileira e, como diz um padre paraibano, desperta o que há de mais desprezível no ser humano. Não é para relaxar, pois há outros meios minimamente dignos para isso e o programa faz parte da vida e das relações sociais de quem assiste. Se não é para relaxar, é por interesse, logo o brasileiro, como comprova os índices de audiência, se interessa por lixos culturais, dedicando seu tempo a algo que em nada acrescentará positivamente na sua vida, mas atrofiará subjetivamente o seu cérebro.

É, portanto, tornar essencial algo inutilmente desnecessário. É Brasil.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Não?

No último domingo, o programa Domingo Espetacular, da Record, veiculou uma reportagem nitidamente tendenciosa referindo-se à prática, por parte de algumas igrejas neopentecostais, do ‘cair no espírito’. Nesse fenômeno a pessoa é supostamente ‘possuída’ pelo Espírito Santo e, decorrente disso, age de forma inusitada, como perder o controle dos movimentos, imitar animais, rodopiar ou rir sem nenhum sentido ou motivação. Não entrarei na discussão da verdade de tal prática, até porque a reportagem já se encarregou de denunciar essa fraude herética, mas no que disseram alguns indivíduos no twitter, afirmando que não se deve falar de religião. Por que não?

Antes que você pense em Jesus e no tão famoso e manipulado versículo bíblico que reza que não devemos julgar, digo que Jesus não foi tolerante com as religiões, mas criticou-as, sobretudo o judaísmo, e fundou uma, ora, o cristianismo (Mt 16, 18). Jesus chamava os fariseus e doutores da lei de víboras. Portanto, Jesus, sim, discutiu religião.

Por que religião tem que ser um tema intocável e livre de críticas? Você pode me dizer que é porque cada um terá sua verdade. E daí? Por qual motivo as verdades não podem se chocar? Ainda mais se as verdades pertencem à uma mesma religião, logo uma das verdades terá que ser a de fato verdadeira.

Religião pode e deve ser discutida, duvidada, criticada, defendida. É nesse processo que opiniões são mudadas, convicções reafirmadas e outras caídas por terra. Mas, claro, isso desde que você saiba o suficiente da sua fé, pois se esta baseia-se apenas em emoções é melhor que você não discuta nada mesmo. Discutir não é sinônimo de desrespeito, mas sinal de sujeição ao aprendizado e à edificação pessoal.

Não costumo defender a Record, nem muito menos a Igreja Capitalista do Reino de Deus, mas por essa reportagem sou levado a confessar os meus sinceros parabéns à Rede Record. Eu concordei, outros discordaram, mas ambos pensamos.

domingo, 6 de novembro de 2011

Verdade - Carlos Drummond

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

O Seu Santo Nome - Carlos Drummond

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Fidelidade histórica

Shakespeare e a Bíblia

“Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um deus; a beleza do mundo; o exemplo dos animais”

Shakespeare, Hamlet.

“Se ficam fascinados com a beleza dessas coisas, a ponto de tomá-las como deuses, reconheçam o quanto está acima delas o Senhor, pois foi o autor da beleza quem as criou. Se ficam maravilhados com o poder e atividade dessas coisas, pensem então quanto mais poderoso é Aquele que as formou. Sim, porque a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por comparação, contemplar o Autor delas”

Sb 13, 3-5.

A liberdade relativizada

Li outro dia um artigo de Roberto Pompeu de Toledo, colunista de Veja, no qual ele criticava de maneira sutil e irônica o multipartidarismo do Brasil, expresso nos mais de 20 partidos existentes. Tal posição comunga, evidentemente, da ideologia e crítica na qual se firma as reportagens da revista sobre o assunto. Eu estendo a ironia de Toledo ao analisar as colocações da revista, e dele, como defensores da democracia e da liberdade. Ora, essa liberdade democrática não se estenderia à livre criação de partidos?

É evidente que, no Brasil, partidos políticos são criados com o único objetivo de atender a interresses eleitorais de coronéis e como forma de reunir posicionamentos convergentes em benefício da classe política organizadora. Outra verdade é que, principalmente após a era Lula, os partidos brasileiros não têm ideologia, sobretudo os de oposição. Oposição? É… Consideremos que ela exista de fato. Mas, e daí?

Eu não posso, mesmo com motivos convincentes, privar a liberdade do outro por julgar que este não a utiliza de maneira correta. A liberdade é uma chuva que cai sobre os bons e sobre os maus. Esse direito é concedido a todos e, por isso, todos podem utilizar da maneira que lhes é conveniente, desde que amparada nas leis estabelecidas que condicionam a utilização do direito. Logo, se eu defendo a liberdade, defendo-a no seu mais amplo sentido, ou cairia no erro de limitar minha defesa ao que acho melhor, aos meus interesses, a mim.

Como combater os maus políticos que fundam os pseudopartidos, então? Nós gozamos de uma ferramenta simples e poderosa para resolver esse e tantos outros problemas que assolam a democracia brasileira: o voto. Só devemos tomar o cuidado de pensar muito bem antes de usar essa faca de dois gumes.