No meio da tarde lá ía eu ligar a TV para ver o que estava passando, já meio sabendo que provavelmente seria Malhação. Não sabia que estava sendo apurado o resultado do carnaval de São Paulo, este que, junto com o do Rio de Janeiro, são o que de mais bonito há nos carnavais do país. Escolas de samba cujos membros são aguerridos, apaixonados pelo seu pavilhão e que passam um ano inteiro em prol de alguns minutos de glória durante os desfiles. Glória muito merecida, fruto de espetáculos em cada ala, em cada boca que canta sambas-enredo poeticamente oriundos de pesquisa. Não acreditei no que via.
Nos outros anos eu sempre acompanhava a apuração das notas, a apreensão dos diretores das escolas e a emoção de pessoas que ansiavam pela avaliação do seu trabalho e empenho. Tive que reprimir os xingamentos quando, no desenvolver da cobertura ao vivo, entendi o que tinha acontecido: um torcedor da Império de Casa Verde não estava gostando do sabor da derrota e invadiu a mesa de apuração, rasgando um envelope contendo notas dos jurados e, em seguida, fugindo negligenciadamente. Foi a faísca que que os famosos torcedores da Gaviões da Fiel estavam esperando para soltar os animais selvagens que habitam dentro deles. O tumulto havia se iniciado.
A área que antes continha guarda-sóis organizados, agora estava tomada pelo caos, com diretores exaltados e equipe de organização tão chocada quanto impotente diante da infeliz surpresa. A torcida da Gaviões, com sua selvageria de praxe, começou a jogar objetos nas equipes de direção até que conseguiram romper a grade e invadir o espaço restrito. Começava o vandalismo de pessoas insatisfeitas com a justiça das notas, tendo, diante da perda iminente, que recorrer à violência como se o título fosse seu por direito. Cidadãos estúpidos, sem o menor senso de civilização e respeito. A torcida, então, foi colocada para fora do sambódromo. Mas não pense que acabou, estavam como feras insaciáveis. Esses seres humanos depredaram, sem justificativa alguma, paredes de alumínio que os separavam de carros alegóricos, chutaram em cadeia o alumínio, arrancaram-no, incendiaram os carros, derrubaram blocos de concreto, enfim, mostraram para que, verdadeiramente, haviam saído de suas casas. Foi mais um quebra-quebra para fazer parte da história da torcida da Gaviões da Fiel, que, não por mera coincidência, também torce pro Corinthians.
É triste ver um evento tão louvável ser maculado por vândalos que não sabem perder. Que não sabem nada, aliás. Pessoas sem escrúpulos que, embalados pela voraz coletividade, acham-se no direito de decidir sobre algo ou julgar alguma coisa a qual não sabem nem os parâmetros.
Espero que as pessoas a frente da organização do evento possam contornar o incidente e premiar aqueles que, aí sim por direito, merecem ser premiados.