segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A cidade sem freio

“O trabalho não para e não pode parar”. É esta a frase proferida por Amazan nas propagandas publicitárias da prefeitura de Campina Grande. É raro não ver tais propagandas na TV local, mas isso, com certeza, não tem nenhum vínculo com as eleições municipais do ano que vem. Ora, o competentíssimo prefeito-deus não desceria a esse nível de politicagem, igualando-se à esmagadora maioria dos políticos brasileiros. Ele só quer mostrar o que fez. Justo.

Chegam a ser deslumbrantes as obras vistosas que são mostradas em cada propaganda, me fazendo enxergar Campina Grande como um canteiro de obras em pleno desenvolvimento. Na educação, por exemplo, é mostrada a construção de novas creches, o aumento de vagas nas escolas, a distribuição de fardamento aos alunos e o aumento dos salários dos professores. Nota das escolas no IDEB? Resultado obtido no ENEM? Medalhas em olimpíadas científicas? Nível de excelência dos alunos? Grau de capacitação dos professores? Caro leitor, para quê se preocupar com esses mínimos detalhes? Isso é só para aqueles que buscam qualidade…

Outra coisa que não é deixada de lado nas propagandas governamentais: a comparação com o governo anterior aos 8 anos nos quais Campina foi verdadeiramente descoberta. O garoto-propaganda da vez brada com orgulho e sorriso estonteante que antes Campina tinha tanto, hoje tem tanto. Como se não fosse a obrigação do prefeito ter desenvolvido a cidade e feito o que ele é pago por nós para fazer, mas apenas um favor aos campinenses. Esse favor, obviamente, não será cobrado no ano que vem, tendo em vista que o prefeito é ético, competente e dotado de uma oratória digna de Jânio Quadros.

Calem-se as críticas! Vocês não têm esse direito, pois o “trabalho não para e não pode parar”.

Analise comigo o final dessa frase inocente: “e não pode parar”. Como eu posso entender isso? É simples: o governo fez tanto, mas tanto, que esse magnífico trabalho não pode parar e para isso eu tenho que votar no candidato indicado por Veneziano. Será que as pessoas entendem isso? Claro! A prefeitura está gerando mentes pensantes e dotadas de alto senso crítico: construindo novas creches, aumentando o número de vagas nas escolas, distribuindo fardamento… Como eu disse, a qualidade é só um mero detalhe.

Lamento profundamente, Vené, mas há eleitores que veem além dos caracóis dos seus cabelos e que acham que conhecimento não adquire-se com tijolos, vagas nem muito menos fardamento. Por sorte nossa e azar seu, caro prefeito, nós vemos além do vermelho, pois enxergamos Campina em preto e branco.

Enfim, vamos profetizar: qual o slogan da campanha do candidato indicado por Vené ao governo municipal? Eu arrisco um: “Campina não para e não pode parar”.

domingo, 2 de outubro de 2011

A Idade Média Contemporânea

Não é difícil lembrar de um dos principais, sensacionalistas e manipulados papeis da Igreja Católica durante a Idade Média: controladora-mor da moral, dos costumes e comportamentos da sociedade de então. Vê-se isso repetido e aprofundado por Calvino, na Suíça. E hoje?

Vivo em uma sociedade que orgulha-se de ser livre, ou seja, de ter a liberdade de ser o que quiser. Mas, até onde vai essa liberdade? O que vejo é apenas uma inversão de papéis: antes era a Igreja a controladora, hoje a coisa está mais plural. Posso ser controlado por quem eu quiser! Livrei-me do moralismo da Igreja!

Se antes era um escândalo usar roupas sensuais e definidoras do corpo, hoje a sociedade capitalista me diz até em que loja eu tenho que comprar e quais etiquetas devo ostentar para ser aceito por esse ou aquele grupo. Calvino entregava seus inimigos para arderem no fogo da Inquisição católica, hoje eu entrego meus colegas para o chefe ou, para ser mais brasileiro, uso meios mais corporativistas e burocráticos para prejudicá-lo. Se antes eu era preso à terra, hoje sou ao dinheiro. Se antes era submissão ou espada, hoje é diplomacia ou bomba nuclear. Se antes era o padre voltado para o altar de Cristo na Missa, hoje ele está voltado pra mim. Antes eu escutava, na Igreja, canto gregoriano (tão invejado por Mozart…), hoje eu ouço rock.

E as guerras santas de outrora? Só mudaram de religião.

Eu não preciso pagar banalidades, corvéia, capitação… Hoje eu só pago uma das maiores taxas de juros do mundo! Insatisfação? Não, até porque as macas dos corredores hospitalares são muito confortáveis. Abandonei o Deus cristão, pois hoje eu posso ter vários: o dinheiro, os astros, o vento, a razão, o sexo, meu umbigo, etc. Eu experimentei uma igualdade apenas submissa ao meu senhor: feudalismo. Hoje, intelectual que sou, prefiro a mesma igualdade, só que submissa ao Estado: socialismo. 

Não quero mais que a Igreja Católica me controle, pois tenho outras formas mais legais de controle: a Igreja Universal do Reino de Deus, as saias da Assembleia de Deus, a predestinação da Presbiteriana, a sociedade, o PT, a Colcci, a Santa e Imaculada Razão (toda glória a ela!), o socialismo calçado em nike ou adidas, etc, etc, etc. São tantas opções…

Se você leu isso aí em cima, cá pra nós, não espalhe, pois o século XXI tem ciúmes. Mas pode relaxar, ele não tem preconceito, é só você ser moderno, mente aberta, descolado, fazer muito sexo o mais cedo possível, cultuar Lula (que é bendito para sempre, amém) e ter uma fé bem lúcida, bem adequada aos seus interesses. Sim! Já ia me esquecendo: lembre de pegar da Bíblia o que serve e de amar ao próximo como a você mesmo. 

PS: Viva às conquistas deste século! Mas é legal perceber certas coisas…