E então coloquei meus olhos de sono sobre a janela e a aurora me desejou bom dia. Quase escuro estava. Quase comum. Me pus à fazer o café, já que minha esposa só vinha piorando da gripe a cada dia que se passava. Era o mínimo que eu podia fazer em tempos tão difíceis àquela que sempre me esperou com a mesa de jantar pronta e um beijo de pôr-do-sol. Água. Fogão. Sento-me para esperar até que a água ferva e neste instante minha mente ganha a sua oportunidade diária de pensar sobre o mundo.
Meus olhos gastos recaem sobre a bicicleta cuidadosamente instalada na sala. Era a única obra de arte presente no cômodo, depois do oratório de Pe. Cícero, claro. Lembrei que sou operário. Lembrei dos livros vermelhos que venho lendo há alguns meses. Capital. Proletários. Classes. Tive que, durante as leituras, recorrer ao dicionário sem capa que restou do meu ensino médio. Ele ainda tem o carimbo da escola. Como seria um mundo de iguais? Seria tudo verdade mesmo? Seriam os novos patrões? O presidente do meu sindicato disse que não, falou que seríamos governados por nós mesmos. Porém, não achei que isso tenha acontecido nos dois livros que li sobre a Revolução Russa e uma parecida no país dos olhos puxados. Estes puxados por natureza. Mesmo assim confiei no meu presidente, cabra bom, honesto, graças a ele as instalações de segurança e isolamento de barulho finalmente foram feitas. Depois disso paguei até os atrasados! Quem sabe se com o aumento do ano que vem eu consigo trocar essa bicicleta com o Pedro da rua de baixo, daria pra completar. Tenho esperança no meu presidente.
Nos dois! O Lula fez demais pela gente daqui. Minha esposa pôde até deixar a lavagem de algumas casas por causa do bolsa. Tem que mandar os meninos pra escola. Será que por lá tem igualdade? Já faz um tempo que deixei a escola… Grande esse Chê, ouvi falar muito bem dele lá pelo meu sindicato. Um dia eu ainda acendo uma vela vermelha pro meu padim abençoar ele. Será que no Céu é todo mundo igual? Será que Jesus é patrão por lá? Será….. A água!
Foram-se as ideias. Foram-se os pensamentos. Realidade chegou. Café tomado. Mais um dia.