terça-feira, 6 de março de 2012

Intervalo histórico

E então coloquei meus olhos de sono sobre a janela e a aurora me desejou bom dia. Quase escuro estava. Quase comum. Me pus à fazer o café, já que minha esposa só vinha piorando da gripe a cada dia que se passava. Era o mínimo que eu podia fazer em tempos tão difíceis àquela que sempre me esperou com a mesa de jantar pronta e um beijo de pôr-do-sol. Água. Fogão. Sento-me para esperar até que a água ferva e neste instante minha mente ganha a sua oportunidade diária de pensar sobre o mundo.

Meus olhos gastos recaem sobre a bicicleta cuidadosamente instalada na sala. Era a única obra de arte presente no cômodo, depois do oratório de Pe. Cícero, claro. Lembrei que sou operário. Lembrei dos livros vermelhos que venho lendo há alguns meses. Capital. Proletários. Classes. Tive que, durante as leituras, recorrer ao dicionário sem capa que restou do meu ensino médio. Ele ainda tem o carimbo da escola. Como seria um mundo de iguais? Seria tudo verdade mesmo? Seriam os novos patrões? O presidente do meu sindicato disse que não, falou que seríamos governados por nós mesmos. Porém, não achei que isso tenha acontecido nos dois livros que li sobre a Revolução Russa e uma parecida no país dos olhos puxados. Estes puxados por natureza. Mesmo assim confiei no meu presidente, cabra bom, honesto, graças a ele as instalações de segurança e isolamento de barulho finalmente foram feitas. Depois disso paguei até os atrasados! Quem sabe se com o aumento do ano que vem eu consigo trocar essa bicicleta com o Pedro da rua de baixo, daria pra completar. Tenho esperança no meu presidente.

Nos dois! O Lula fez demais pela gente daqui. Minha esposa pôde até deixar a lavagem de algumas casas por causa do bolsa. Tem que mandar os meninos pra escola. Será que por lá tem igualdade? Já faz um tempo que deixei a escola… Grande esse Chê, ouvi falar muito bem dele lá pelo meu sindicato. Um dia eu ainda acendo uma vela vermelha pro meu padim abençoar ele. Será que no Céu é todo mundo igual? Será que Jesus é patrão por lá? Será….. A água!

Foram-se as ideias. Foram-se os pensamentos. Realidade chegou. Café tomado. Mais um dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Os civilizados

No meio da tarde lá ía eu ligar a TV para ver o que estava passando, já meio sabendo que provavelmente seria Malhação. Não sabia que estava sendo apurado o resultado do carnaval de São Paulo, este que, junto com o do Rio de Janeiro, são o que de mais bonito há nos carnavais do país. Escolas de samba cujos membros são aguerridos, apaixonados pelo seu pavilhão e que passam um ano inteiro em prol de alguns minutos de glória durante os desfiles. Glória muito merecida, fruto de espetáculos em cada ala, em cada boca que canta sambas-enredo poeticamente oriundos de pesquisa. Não acreditei no que via.

Nos outros anos eu sempre acompanhava a apuração das notas, a apreensão dos diretores das escolas e a emoção de pessoas que ansiavam pela avaliação do seu trabalho e empenho. Tive que reprimir os xingamentos quando, no desenvolver da cobertura ao vivo, entendi o que tinha acontecido: um torcedor da Império de Casa Verde não estava gostando do sabor da derrota e invadiu a mesa de apuração, rasgando um envelope contendo notas dos jurados e, em seguida, fugindo negligenciadamente. Foi a faísca que que os famosos torcedores da Gaviões da Fiel estavam esperando para soltar os animais selvagens que habitam dentro deles. O tumulto havia se iniciado.

Homem invade área onde notas eram lidas, pega e rasga documentos; veja mais fotos

A área que antes continha guarda-sóis organizados, agora estava tomada pelo caos, com diretores exaltados e equipe de organização tão chocada quanto impotente diante da infeliz surpresa. A torcida da Gaviões, com sua selvageria de praxe, começou a jogar objetos nas equipes de direção até que conseguiram romper a grade e invadir o espaço restrito. Começava o vandalismo de pessoas insatisfeitas com a justiça das notas, tendo, diante da perda iminente, que recorrer à violência como se o título fosse seu por direito. Cidadãos estúpidos, sem o menor senso de civilização e respeito. A torcida, então, foi colocada para fora do sambódromo. Mas não pense que acabou, estavam como feras insaciáveis. Esses seres humanos depredaram, sem justificativa alguma, paredes de alumínio que os separavam de carros alegóricos, chutaram em cadeia o alumínio, arrancaram-no, incendiaram os carros, derrubaram blocos de concreto, enfim, mostraram para que, verdadeiramente, haviam saído de suas casas. Foi mais um quebra-quebra para fazer parte da história da torcida da Gaviões da Fiel, que, não por mera coincidência, também torce pro Corinthians.

É triste ver um evento tão louvável ser maculado por vândalos que não sabem perder. Que não sabem nada, aliás. Pessoas sem escrúpulos que, embalados pela voraz coletividade, acham-se no direito de decidir sobre algo ou julgar alguma coisa a qual não sabem nem os parâmetros.

Espero que as pessoas a frente da organização do evento possam contornar o incidente e premiar aqueles que, aí sim por direito, merecem ser premiados.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Sem olhar para trás é bem mais fácil

Estava lendo o Portal Vermelho e me deparei com um artigo, assinado por Renato Rabelo, sobre a crise grega. Rabelo usou argumentos pífios para sensacionalizar os protestos ocorridos em Atenas e conferir uma visão apocalíptica ao pacote de austeridade proposto. Tais argumentos passaram longe dos fatos, estes que nem foram levados em conta pelo articulista, dando a impressão de que a crise surgiu do nada para oprimir a classe média e os trabalhadores menos abastados, como se estes não tivessem usufruído dos tempos de ouro do bem-estar social. Mas, vamos às declarações de Rabelo:

“O parlamento grego -sob massiva pressão popular e dos sindicatos - não foi capaz de reprovar um pacote de medidas restritivas que afeta de forma violenta a vida de milhões de pessoas. Aprovou-se um pacote completo de reformas em todos os campos dos direitos sociais: demissão de 15 mil servidores públicos, corte de 22% do salário mínimo e cortes de salários em todas as categorias de servidores públicos e privados”, assim começa Renato Rabelo. O parlamento não foi capaz de reprovar e nem deveria! Se a Grécia não conseguir pelo menos apaziguar suas dívidas, o Estado quebra e a população, principalmente os mais pobres, é quem terá que arcar com as consequências as quais o governo está tentando evitar. Essa crise deve-se à décadas de elevados gastos públicos, aumento cego do funcionalismo e elevação dos salários. Foram essas ações, praticadas inconsequentemente, que deram à Grécia uma dívida de 300 bilhões de euros, acumulada em contra ponto com o superficial e falso bem-estar de outrora. É justamente a origem da crise que o pacote de austeridade quer atingir, reduzindo os servidores e os salários.

“Do FMI, Banco Mundial e Banco Europeu direto para o caixa de bancos alemães”, diz Rabelo em tom simplista e sindicalista. O dinheiro está saindo do FMI, Banco Mundial e Banco Europeu porque são estas instituições que estão emprestando tal dinheiro aos gregos, para que o país não vá ao fundo do poço, se é que já não está nele. O dinheiro está indo para os bancos alemães, porque é para eles, dentre outros, que o país deve, logo merecem ser pagos. E a Grécia só está recebendo tal ajuda porque é membro da União Europeia, do contrário os empréstimos, de altíssimo risco diga-se, não viriam com relativa facilidade.

“Um sinal degradante dos tempos num nada casual encontro entre neoliberalismo e fascismo”, chora o articulista. Mas é claro que a culpa do mal no mundo é do capitalismo e dos neoliberais. Viva à esquerda! Nosso exército da redenção!

“Democracia para o sistema financeiro e repressão implacável às manifestações populares”, continua Renato Rabelo. É preciso destrinchar este ‘manifestações populares’. É evidente que o povo grego tem o direito de indignar-se e sair às ruas para protestar contra o que quer que seja e bradar a sua indignação, contudo isso não justifica a tentativa de invasão do parlamento, vandalismo, saques e quebra-quebra. Não foram todos, mas foram muitos.

“Este encontro se dá na medida em que percebemos que os intentos de dominação das grandes potências na Europa encontram um irresistível eco nas exigências alemãs para a continuidade da ‘comunidade’ européia”, esquerdiza o companheiro. Como eu disse, a culpa é dos imperialistas. Sempre, sempre, sempre. Ele só esqueceu de dizer que essa ‘comunidade europeia’, à exemplo da própria Alemanha, é quem está tentando impedir que a Grécia desça ladeira a baixo com o peso de 300 bilhões de euros, mesmo sem muita simpatia de suas próprias nações.

“Trata-se de um grande retrocesso!”, finaliza com chave vermelha. Só faltou uma coisa: “trabalhadores do mundo, uni-vos!”.

Candidato à contragosto

O ex-governador de São Paulo, José Serra, há algumas semanas deu declarações nas quais afirmava, com uma furtiva convicção, que não seria candidato à prefeito da capital paulista este ano. Os ingênuos, como eu, acreditaram. Hoje a imprensa noticiou que Serra teve conversas com o governador Geraldo Alckmin em que pretendia reconsiderar a decisão, como vergonhosamente já fez.

É inquestionável a capacidade e competência administrativa do ex-governador, porém os paulistanos terão pela frente um candidato sem entusiasmo nem o menor engajamento em ser inteiramente prefeito de São Paulo. Se Serra vencer as eleições, a cidade ficará na dúvida se ele irá concorrer às eleições de 2014 ou não. Mais uma vez e por dois anos, na dúvida.

O cacique tucano, que saiu novamente derrotado das últimas eleições presidenciais, demonstra incertezas quanto ao seu futuro político, deixando seus eleitores à se questionar se estarão votando nele ou no seu companheiro de chapa.

Nesta atitude de José Serra é notável que o PSDB se viu sem candidatos plausíveis e tendo que enfrentar primárias, nas quais políticos sem expressão digna da candidatura iriam disputar a indicação do partido. O PSDB precisava de um candidato forte e capaz de enfrentar Fernando Haddad, apadrinhado de Lula e prestes a tecer alianças com o parasita PSD, e Gabriel Chalita, peemedebista meloso e com forte apelo junto a massa católica seguidora da Canção Nova e da RCC.

O PSDB encontrou, mas deixou seus eleitores desencontrados.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tratada como mendiga

Estou assistindo à mais um empasse envolvendo os desmandos autoritários do governo Ricardo Coutinho, desta vez com a Universidade Estadual da Paraíba. O empasse é por si só absurdo, pois é inadmissível que uma universidade com a importância e o brio da UEPB esteja totalmente dependente e atada em relação a um estado cujo governador acha que tem que tomar decisões sem consulta nenhuma e que tais certamente são o melhor para os paraibanos. Ricardo está esquecendo que é apenas governador.

Uma das maiores conquistas do governo Cássio Cunha Lima foi a implantação da lei de autonomia da UEPB, estabelecendo que o estado deve repassar à universidade no mínimo 3% de ser orçamento, sendo que o repasse feito em um ano não pode ser inferior ao do ano anterior. Isso não é uma alucinação da reitora Marlene Alves, é lei. A lei vem sendo cumprida desde 2005, passando pelos governos Cunha Lima e Maranhão, até desaguar na lama de Ricardo Coutinho.

O atual governador, sempre através da secretária Aracilba Rocha (que deve também atuar como porta-voz), argumenta que está cumprindo a lei ao ter repassado 4,34% em 2011, aumentando para 4,5% este ano. Ele diz que isso é maior que os 3% estabelecidos pela lei, mas esquece que não se pode repassar menos do que o repassado no ano anterior, sem falar que a UEPB instalou novos campus e as despesas são tradicionalmente corrigidas monetariamente conforme a inflação vigente. O estado da Paraíba repassou para a UEPB em 2011 menos do que foi repassado no governo Cássio em 2008.

E não adianta quem quer que seja querer dizer que a reitora está fazendo esse alarde visando as eleições deste ano para a prefeitura de Campina Grande, pois ela nem sequer tem chances reais de vencer as eleições e pede apenas o cumprimento da lei.

Governador, nós paraibanos, assim como a reitora, não estamos pedindo que o senhor cumpra as promessas que fez, honre os votos que teve, saia do ridículo e entre na democracia, tire a coroa e vista-se da humildade digna de um governante eleito segurando a esperança de mudança; mas apenas que o senhor cumpra a lei, garanta a autonomia da UEPB e dê a ela o que uma instituição acadêmica pública como ela merece receber. Só isso, caro governador.

Só faltou a fogueira

Foi recentemente aprovado pela Assembleia Estadual do Rio de Janeiro um projeto de autoria da deputada Myrian Rios que destina R$ 5 milhões do orçamento estadual para a promoção da Jornada Mundial da Juventude, evento católico marcado para 2013 que contará com a presença do Papa Bento XVI. Bastou isso para que a Record, empresa cujo dono também lidera a Igreja Universal, condenasse o projeto e a deputada, com argumentos chulos que beiram a inexistência e colocasse sobre ele as mazelas do estado. Patético.

Mas as revoltas não param por aí. Alguns indignados que possuem facebook compartilharam uma imagem denigrindo a deputada fluminense e publicando que o contribuinte não é obrigado a pagar tal evento. Antes de mais nada, o projeto retira dinheiro do orçamento do estado do Rio, logo os contribuintes diretamente “afetados” são moradores do estado e não do país inteiro. Ora, por que essas pessoas não estão indignadas em pagar a copa? E as olimpíadas? Eu posso gostar ou não desses eventos, mas nem por isso deixarei de pagar por eles como contribuinte que sou.

Não vejo indignação quando o senador Marcelo Crivella propõe algo em favor dos evangélicos, no senado. Não vejo indignação quando os prefeitos emprestam prédios públicos ou financiam eventos religiosos, como aconteceu, por exemplo, em São Paulo nas comemorações da Assembleia de Deus. Não há indignação quando são promovidos com dinheiro público eventos que valorizam e preservam as religiões africanas e as tradições advindas de tais. Não vou nem falar da Marcha para Jesus. Por que a Igreja Católica tem que ser privilegiada com essa onda de absurdos infundados?

O Brasil ainda é um país democrático e majoritariamente católico, então a maioria dos pagantes de impostos professam tal religião e tem o direito de ver sua religião preservada e valorizada com o seu dinheiro, maioria que são. Além do mais se esquece de que o Brasil não receberá só um líder religioso, mas também um chefe de estado digno das honrarias tradicionalmente necessárias.

Chegou a se falar até que a JMJ traria caos para a cidade do Rio! O Rock in Rio foi um evento bem calmo, se eu me lembro… A cidade receberá peregrinos do mundo inteiro, não só do Brasil, e precisa estar estruturada e bem preparada para o evento. Este que tem o direito de ser promovido como qualquer outro, até porque ele não será de financiamento inteiramente público e trará um retorno muito maior para a cidade como um todo. A última JMJ premiou os cofres de Madrid com mais de 1 bilhão de reais.

Todo cidadão tem o direito de ir contra alguma coisa. O pior é quando essa oposição limita-se a si mesma.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma visita, uma serva

Eu não poderia deixar passar em branco a visita que a presidente Dilma Rousseff está fazendo à Cuba, com todas as declarações desconversantes que eram praxe do seu antecessor e que ela, pelo visto, herdou. Deixarei de lado os acordos e incentivos econômicos, pois é perfeitamente plausível o Brasil, enquanto país independente que é, tecer alianças econômicas com outros países. Opinarei sobre as questões ideológicas.

"Quem atira a primeira pedra tem telhado de vidro. Nós no Brasil temos o nosso. Então eu concordo em falar de direitos humanos dentro de uma perspectiva multilateral", disse Dilma quando perguntada sobre os direitos humanos tão absurdamente violados em Cuba. Com essa declaração, Dilma mais uma vez sai pela tangente e deixa os brasileiros sem uma resposta aceitável sobre o tema, generalizando-o. Ela coloca a ilha como uma vítima e expande um problema que é deles para todo o mundo, como se no planeta inteiro se praticasse o socialismo nostálgico e a oposição fosse perseguida e presa.

Enquanto sorri para as fotos, a presidente silencia diante dos presos políticos que fazem greve de fome contra o regime dos Castro. Enquanto os cidadãos que não compartilham com as utopias da esquerda esperam algo palpável e significativo, a presidente castra a esperança de uma mudança de posicionamento em relação aos crimes praticados pelo regime cubano. O silêncio como resposta é o que obtemos do governo brasileiro uma vez mais.

A presidente Dilma tem surpreendido a todos com as ações contra a corrupção implementadas energicamente em seu governo, mas deixou a desejar quando se escondeu dos microfones atrás dos monumentos de Chê e dos uniformes militares dos Castro. Ela fugiu do pragmatismo, correndo para abraçar a medicina preventiva do país. Ela correu dos brasileiros para entrar nas casas estatais do país.

É, presidente… Mas continuamos aqui: sabendo que a medicina de Cuba não vai além da prevenção, sendo sucateada quando as pessoas precisam de algo especializado quando já estão doentes; sabendo dos assassinatos empreendidos por Chê e Fidel Castro; sabendo que os cubanos anseiam pela propriedade privada.

Nós sabemos de tudo e a senhora, como Lula, pensa que não sabemos de nada.